sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

10 entrevistas de 10 perguntas com 10 seguidores do Buzo no Facebook. 6/10 > ENTREVISTA EXCLUSIVA COM "Jean Mello", escritor.

Jean Mello é um jovem escritor com três livros publicados...... vamos conhecer ele melhor ?
ENTREVISTA EXCLUSIVA




Buzo: Como é ser escritor no Brasil?
Jean Mello: Dedicar-se a qualquer tipo de atividade cultural no Brasil traduz-se em resistência, insistência, militância, dificuldade de todas as espécies para se manter, acreditando no impossível. Comigo sempre foi assim, como educador e agora também como escritor e músico. Um não é isento do outro.
Vivemos em um país em que não chega a 1% os recursos destinados à cultura. Apenas 0,6% do orçamento do governo federal são repassados para bancar práticas culturais. A luta é para que se chegue a pelo menos 2%.
Desde o governo Lula, mesmo com todas essas notícias de corrupção em massa, fato que não é exclusividade da gestão de todos esses anos do Partido dos Trabalhadores, podemos ver isso com facilidade nos noticiários ou em qualquer pesquisa séria sobre o assunto, o Brasil passou por grande desenvolvimento econômico para vários setores da sociedade que não tinham acesso aos bens que, historicamente, eram de desfrute apenas da elite financeira. Claro que é preciso olhar de modo crítico para esse chamado desenvolvimento econômico. A quem realmente beneficiou essas mudanças? Reflito um pouco sobre isso na resposta dessa questão.
Hoje, os ricos têm de dividir espaço com negros e nordestinos nos aeroportos. Os filhos das domésticas do passado estudam em universidades por intermédio de bolsas de estudos concedidas a partir do resultado do Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM.
Não sou panfletário de nenhum partido ou governo. Como escritor e educador essa é uma questão que observo, considero cara, importante, mas não gasto meu tempo discutindo isso em filas de ônibus ou debates intelectuais. O Brasil e o mundo são muito mais que isso. Não precisa de muito esforço para entender. Porém, refletindo sobre os últimos anos, pensando nas mudanças que vejo serem significativas, reflito por quais motivos todas essas transformações não aconteceram também no campo da cultura e da educação. Mais no campo da cultura. Se tão pouco investimento é destinado para isso, como vamos viver em um país em que os gestores, nacionais e regionais, não fizeram o desenvolvimento cultural caminhar de mãos dadas com o chamado desenvolvimento econômico?
Por outro lado, mesmo sabendo que não é exclusividade das gestões Lula e Dilma, concordo com o dramaturgo e diretor da Cooperativa Paulista de Teatro, Dorberto Carvalho. Ele diz... “Desde o governo Lula, o país tem passado por um período de desenvolvimento que beneficiou diversos setores da sociedade, dentre os quais empresários, banqueiros e investidores internacionais. A questão é que a cultura, entre outros setores sociais, quase não se beneficiou desse processo. Por conta disso, buscamos não só uma correção dessa desigualdade, bem como uma distribuição de recursos públicos que corresponda ao desenvolvimento econômico dos últimos anos e responda à demanda de produção, ao acesso e a fruição dos bens culturais por parte de uma imensa maioria da população”.
Acesso ao crédito não é necessariamente desenvolvimento social e econômico. Mesmo assim, os mais pobres ocuparem alguns espaços mexe, e muito, com o imaginário dos mais ricos nesse país chamado tropical. Veremos o efeito disso ao passar dos anos.
Ser escritor é fazer parte desse universo. Viver em uma realidade pautada no que vive o mundo e, por simples obviedade, o país de origem do autor. Somos de uma nação que não exige quase nada em desenvolvimento humano. O escritor, por consciência, vai no fluxo contrário disso tudo. Será fácil viver como escritor em um lugar assim?


Buzo: Quantos livros você publicou, comente brevemente sobre eles...
Jean Mello: Três livros, eles podem ser lidos do modo isolado, mas quando são degustados, um após o outro, são entendidos em sua completude. Crônicas Perdidas, Exalando Esperança e Fim de Tarde. Mas muitos admiradores de meu trabalho, desde a criação de meu site em 2008, me corrigem. Eles dizem que tenho mais de três publicações. Já me disseram que meu site é um livro sem fim, virtual.
Para explicar meus dois primeiros escritos, vou recorrer ao site da editora Kazuá, que publicou meu novo livro. E, para falar do Fim de Tarde, vou utilizar algo que meu amigo Germano Gonçalves e Marília de Santis disseram a respeito da obra: “Em 2013 publicou o livro Crônicas Perdidas. Relatos sobre uma diversidade de temas: educação, preconceito, religião, cultura, desigualdades sociais. Em 2015 mais um projeto publicado, Exalando Esperança. Na obra são retratadas situações aparentemente pequenas que ocorrem principalmente nas periferias, mas que precisam ser valorizadas. Um projeto de alfabetização de adultos nascendo em alguma região de vulnerabilidade social, um polo cultural surgindo em uma praça abandonada, pessoas superando as dificuldades que todo excluído enfrenta. Acredita que o sonho de Luther King não virou pó. Insiste em deixar sua marca no mundo através da arte” (Entrelinhas do autor, site da Editora Kazuá).
“Em Fim de Tarde, Jean, nos atenta a ver e examinar cuidadosamente as coisas do mundo, os afetos das pessoas, o grau de formalidade ou de intimidade entre os transeuntes de uma cidade. O desinteresse por uma cultura digna; o orgulho de quem anda de carrão e de modo desenfreado rumo ao vazio, como o autor menciona em uma das crônicas dessa obra: ‘Foi angustiante ver os carros passando, no trânsito da vida, com pressa, ou nem tanto assim, em direção ao nada que os esperavam’. É evidente que a humanidade está cada vez mais voltada para si, egoísta, pensando em seu próprio umbigo. Mas, vale lembrar, nas palavras do autor, que todos nós vamos para o mesmo lugar, e que desta vida nada se leva” (Germano Gonçalves).
“Jean Mello é educador social, cronista, músico, comunicador, poeta. Alicerça a sua obra no chão da vida. Romântico, mas nada ingênuo, procura explicar a realidade a partir do que vive, com profundo respeito à riqueza que a prática de seu cotidiano lhe confere. Suas crônicas, críticas e poéticas, são marcas de sua passagem pelo mundo. Jovem de largo horizonte, nos revela seu olhar e nos desvela um mundo de ilusões onde o consumo, a alienação e a injustiça social se desmancham sob a simplicidade de seu humor e de sua inquietude. Fim de Tarde é um livro simples. E especial. Porque é sensível e porque carrega consigo a esperança de um mundo melhor” (Marília de Santis é educadora e organizadora do livro Memórias de Heliópolis).


Buzo: Fim de Tarde, fala muito de educação..... a educação tem jeito no Brasil, qual o caminho?
Jean Mello: Sim... Mas não acho que a solução está necessariamente na escola. Também não quero centrar no que chamam de educação alternativa. Caminhos para educação são semelhantes aos que queremos apontar para a sociedade como um todo.
Lemos pouco nesse país, desfrutamos pouco das culturas locais, mesmo assim, temos manifestações culturais belíssimas. O que fazemos com tudo isso?
Precisamos de mais pessoas como o Alessandro Buzo, Sérgio Vaz, Jéssica Balbino, Ferréz, Sacolinha. Quais foram os caminhos trilhados por essas pessoas? Em outros lugares do Brasil precisa acontecer um movimento parecido com o que mantém Heliópolis, como o Bairro Educador. Não devemos ter cidades educadoras, restritas, mas um país totalmente pautado na melhoria da qualidade da educação no sentido amplo, valorizando conhecimentos humanos, não os que são classificados como importantes na educação básica ou no ensino superior.
Sempre que um sujeito se incomoda com alguma realidade de desigualdade social ou da desvalorização da cultura, dita periférica ou não, por exemplo, nasce alguma reação social, geralmente em forma de projetos ou, como podemos ver em várias situações, ações propriamente ditas que, não raro, mexem com alguma estrutura social/política posta. Falo das resistências culturais históricas.
Se olharmos com cautela para um passado remoto na história do Brasil, veremos que existiram muitos movimentos parecidos com a Cooperifa, o Sarau do Binho ou do Suburbano Convicto. Isso demonstra que a história continua se repetindo, porque os problemas se sofisticaram. Geralmente olho para essas coisas com bastante otimismo. Ela se repete tanto para opressão, quanto para as resistências. Simplista? Os quilombos de ontem são as favelas de hoje, seria coincidência ou a própria história mostrando que está aí para quem quiser ver?
Para a sociedade mudar de verdade, influenciando, lógico, na educação, seja ela escolar ou alternativa, os sofisticados movimentos, de reinvindicações sociais, deveriam dialogar mais e não ficarem com suas bandeiras isoladas levantadas. Além disso, crianças e adolescentes devem compartilhar com seus educadores conhecimentos práticos para solucionar problemas da vida e, mesmo sabendo que socialmente isso será exigido, ficar centrado em fórmulas exaustivas para alcançar boas notas no vestibular. Os saberes populares precisam ser disseminados para todos.
Reorganização proposta pelo Alckmin que gerou as ocupações, como você viu esse movimento e o que acha da proposta?

No site da Secretaria Estadual de Educação encontramos as seguintes palavras: “O processo de Reorganização Escolar, que amplia o número de escolas com ciclo único, foi adiado pelo Governo do Estado, a fim de ampliar o diálogo com pais, alunos e comunidade escolar. A proposta favorece a gestão das unidades e possibilita a adoção de estratégias pedagógicas focadas na idade e fase de aprendizado dos alunos”.
Se essas palavras foram ditas, podemos dizer que não houve diálogo para acontecer a reorganização escolar. Não só dessa vez, quase sempre é vertical. O poder público decide e o povo tem de acatar. O problema é que as pessoas estão cansadas disso. Agora essa bomba estourou, quando eles ocuparam as escolas, repetiram feitos históricos relacionados à juventude e ao Brasil.
Fizeram também o que ninguém vê essa geração fazer. Em todo tempo vemos manifestações sociais e culturais de jovens. Em um tempo de minha trajetória como educador fiz assessoria para escolas estaduais e a insatisfação era geral há alguns anos atrás. Deu para perceber que empurrar a sujeira para debaixo do tapete não é a solução, uma hora alguém descobre e a situação fica feia.
Logo no começo das ocupações me deparei com um escrito de um novo conhecido, Ruivo, descrevendo essa mesma parada. Concordo com ele. Quando as palavras estão ditas, não temos motivos para alterá-las. Dito está...

São Paulo, 2 de dezembro de 2015.
Meu amigo, Paulo Freire!
Espero que esta carta o encontre bem!
Na última vez em que eu o ouvi, fiquei muito comovido quando o senhor disse que estava muito cansado, embora estivesse muito feliz em estar vivo e morreria feliz em ver um Brasil em seu tempo histórico cheio de marchas, mas as “marchas dos que não tem escola, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marchas dos que querem ser e estão proibidos de ser...”. Como o senhor mesmo disse, “as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo”. Já se passaram alguns anos desde aquela última vez, de lá pra cá, toda vez que demos um passo o mundo saiu do lugar.
O senhor, como sempre, me pondo a pensar. Como um homem que conheceu tão bem a nossa gente, que conviveu tanto com a nossa gente, que conversou tanto com a nossa gente, que pensou tanto com a nossa gente, que se dedicou a vida inteira a nossa gente, pudesse estar cansado... cansado e feliz? Afinal, é a tua gente o motivo da tua felicidade, amigo Paulo!
É por isso que os donos do poder atentam contra a tua gente, como se fôssemos uns “desabusados... destruidores da ordem”, quando na verdade afirmamos que “é preciso mesmo brigar para que se obtenha o mínimo de transformação”. O teu desejo, o teu sonho, era o de que as marchas dos “sem” acontecessem para nos afirmarmos como gente e como sociedade querendo democratizar-se.
O senhor que nos agraciou com a mais potente “Pedagogia do Oprimido”, elevou a “Educação como prática da liberdade”, e estimulou a “Ação cultural para a liberdade”, fez da “Pedagogia da autonomia” um norte, no qual “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”, sem abrir mão da “Importância do ato de ler”, nutrindo-nos de “Pedagogia da esperança”. Nem a perseguição, nem a prisão, nem a censura, nem o exílio o cansaram. Por que o cansariam agora, quando mais precisamos da vitalidade do senhor?
Meu amigo, Paulo. Preciso contar-lhe algo surpreendente. Há algumas semanas, estudantes secundaristas de escolas públicas de São Paulo mobilizaram-se e ocuparam as escolas estaduais contra a intransigência política e o autoritarismo mais atroz dos mandatários de plantão da Secretaria de Estado da Educação do Governo de São Paulo. Estes mandatários querem a todo custo promover uma desorganização do sistema misto do ensino fundamental e médio na mesma unidade escolar. Além de separar os estudantes, irmãos e irmãs em anos diferentes, estes mandatários anunciaram o fechamento de escolas e irão aumentar ainda mais a quantidade de estudantes por sala de aula, prejudicando ainda mais o processo de aprendizagem da turma de educandos, como também de educadores que ficarão pressionados entre carteiras e lousas nas salas de aula já superlotadas.
Amigo, Paulo. O senhor, depois de andarilhar com os oprimidos pela América Latina, Europa e África, foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo, dialogando com todo mundo disposto a falar e também a ouvir. Ninguém mais do que o senhor sabe o valor da fala do oprimido que ao falar denuncia sua opressão e ao fazê-lo conscientiza-se “da tomada de decisão de intervenção no mundo”. O senhor que como Secretário Municipal de Educação acabou com as “delegacias de ensino”, porque delegacias são de polícia e não de ensino, e criou os Núcleos de Ação Educativa, unindo prática e reflexão pedagógica com e entre educadores e educandos. O senhor ficaria feliz se pudesse estar aqui para conferir a vitalidade, a disposição, a coragem e o sorriso que só a meninice consegue nos agraciar. Esses meninos e meninas que ainda estão se fazendo gente têm passado noites em salas e pátios de escolas ocupadas, organizam-se para a limpeza, para alimentarem-se, para promover a própria segurança, realizam assembleias, discutem os feitos do dia e planejam o dia seguinte, e assim “contrariam as estatísticas”, tomando para si a possibilidade de decidirem sobre o próprio futuro.
O senhor nunca deixou que esquecêssemos que não há possibilidade de educação apartada da cultura e que não há cultura apartada da educação. Sabemos que a truculência e a ideologia da ditadura militar nunca permitiram que a escola fosse um centro cultural de aprendizagem mútua e que anos mais tarde, a truculência política impediu que nossa amiga Marilena Chauí, então Secretária Municipal de Cultura, ao teu lado, fizesse das casas de cultura da Cidade de São Paulo, espaços educativos de modo que escolas e casas de cultura complementar-se-iam tal qual Cultura e Educação devem complementar-se, emaranhar-se, de modo que o sujeito da cultura e da educação seja os educandos.
Em uma escola ocupada e gerida pelos estudantes, prestigiei uma apresentação de teatro cujo mote era a rebelião dos trabalhadores cansados da opressão dos patrões. Vi amigos dos estudantes promovendo oficinas de estêncil, comunicação alternativa, cartazes, capoeira, música, sarau de poesia e etc. Vi pais e mães ao lado dos filhos e filhas, juntos, e não era nenhuma reunião protocolar de pais e mestres e sim a participação tão desejada da comunidade na vida escolar. Vi professores e professoras dialogando em profunda comunhão, chamando os estudantes pelo primeiro nome e sendo chamados pelo primeiro nome, aprendendo juntos a conviver fraternalmente como sempre desejamos. Vi pessoas doando livros, mantimentos, produtos de limpeza e etc., como demonstração de apoio aos estudantes. Vi pessoas dispostas a dialogar com os estudantes sobre consenso, organização, feminismo, negritude, LGBT, direitos humanos, educação popular e etc. Vi pessoas dispostas a ajudar de qualquer forma, a ouvir o que os estudantes têm a dizer e simplesmente estar ali, solidarizando-se. E numa das escolas ocupadas, vi no pátio, bem ao fundo e no alto, o teu retrato mais bonito, como se estivesse olhando a e por todos nós, testemunhando o movimento da história e feliz por estar presente. Posso imaginar o senhor sentado ali, junto com os estudantes, muito a vontade entre a tua gente, trocando histórias com eles como se estivesse ao pé de uma mangueira.
A cegueira e a surdez política dos mandatários de plantão da Secretaria de Estado da Educação enchem os brutos de orgulho muito mais do que bom senso. É espantoso como um aparato tão poderoso da educação pode ser manipulado por mandatários inescrupulosos e belicosos que, sem nenhuma vergonha, declaram “guerra” ao bem mais precioso da educação que é os estudantes, sujeitos da educação, sem os quais a Secretaria de Estado da Educação não passa de uma ostra moribunda, ensimesmada, destinada a prisão ao próprio casco. O Estado declarou “guerra” aos estudantes por estes recolocarem na ordem do dia a educação pública. Na ausência de diálogo, o Estado responde declarando a mais bestial “guerra” suja!
Amigo, Paulo. Os estudantes estão tomando as ruas da Cidade para buscar diálogo com cidadãos e cidadãs ainda penetráveis pela sensibilidade necessária que nos irmana a todos. As polícias agem como os mais ferozes, sedentos e bestializados cães raivosos à serviço dos poderosos. Contra a imposição da desorganização escolar, os estudantes respondem com a afirmação de que “não tem arrego”!
Como o senhor bem disse, “é preciso ir além da passividade com uma postura rebelde e criticamente transformadora do mundo”. Estes estudantes ainda pouco o conhecem, mas o senhor ficará feliz quando o conhecê-los.
Estes estudantes estão escrevendo os novos rumos da educação pública, nem eles, nem a sala de aula, nem as escolas hoje ocupadas serão as mesmas. Como o senhor, eu também estou feliz por testemunhar a vitalidade da história, que não está determinada, mas que ainda está por se fazer.
Abraço do amigo de sempre,
Ruivo Lopes.
P.S.: permita-me, pelo profundo respeito e admiração, que eu o chame nesta carta carinhosamente de “senhor”.


Buzo: Nos fale alguns autores que você lê, é fã?
Jean Mello: Falarei de referências de um modo geral... Gente que me inspira. Rubem Alves, Paulo Freire, Machado de Assis, Frei Betto, Leonardo Boff, Chico Buarque, Criolo, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue, KL Jay, Sérgio Vaz, Maria Carolina de Jesus, Negra Anastácia.
Tenho mais nomes... Só que às vezes me referencio em pessoas que estão escrevendo livros, mas não sabem que estão. Trabalhadores na luta cotidiana, amigos, familiares meus, os mais próximos e os mais distantes.


Buzo: Complete a frase..... Literatura é?
Jean Mello: O combustível para todas as utopias... Acredito que seja como nas palavras de Galeano.
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” (Eduardo Galeano).
A literatura me salvou de toda falta de fé. Não paro de caminhar por conta dos livros que li, escrevi e ainda vou escrever.



Buzo: Quem te incentivou a ler e escrever e qual a importância (ou não) da escola nesse processo?
Jean Mello: Meu pai sempre foi envolvido com música, não apenas por ser admirador do Djavan.
Dono de uma loja de disco em que gravava os grandes sucessos da época do disco para fita K7, que os clientes, na maioria das vezes amigos dele, solicitavam, principalmente os de música black. Creio que ele também dava uns bailes (olha o que eu digo, acho que estou ficando meio 'tiuzão') como DJ, mas disso não tenho certeza.
Cantor e compositor. Desde que me conheço por gente vejo meu pai tocando seu violão e cantando com empolgação. Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Stevie Wonder, Earl Klugh, Michael Jackson, Lulu Santos, etc., eram as referências de meu lar. Quando não eram tocados no violão, vinham do LP.
Por incrível que pareça, acredito que toda essa situação tenha sido minha iniciação no mundo das artes, que tem a escrita, para mim, como meu alicerce.
Aprendi a ler na pré-escola. Já na primeira série, tive uma professora chamada Olinda, não me esqueço.
Os professores de história que tive, um deles até cito no "Fim de Tarde", contribuíram bastante para minha inserção no mundo da leitura e da escrita. Não tanto os de português.


Buzo: Você se denomina Literatura Marginal, o que acha desses rótulos, marginal, periférica?
Jean Mello: Não me incomodo com os rótulos. Já fui mais irritado com isso. Hoje em dia não mais. Creio que tudo é literatura e cultura. Mas existem os pesquisadores empoeirados - na maioria das vezes acadêmicos - que precisam classificar tudo, nomear. Isso pra muitas coisas.
Uma vez eu fui convidado para recitar umas poesias em Paraisópolis. Foi uma festa bem legal, muita comida boa, gente divertida, fui muito bem recebido pela comunidade. Em um momento da festa percebi que um grupo de jovens não se aproximava da galera, em hipótese alguma. Eles olhavam e anotavam. Aquilo me intrigou. Fui até eles e perguntei por qual razão eles estavam de espectadores daquela festa linda. Eles responderam: "Somos pesquisadores, não podemos nos misturar com nossos objetos de estudo".
Lógico que nem todos os pesquisadores são assim. Mas muitos são...
De quais lugares saem esses rótulos? Por quais motivos escritores precisam ser classificados como marginais? Um dia nos livraremos dessa nomenclatura? Queremos nos livrar? Sempre me pergunto. Me considero escritor. Mas não me incomodo com os rótulos, isso não quer dizer que eu os aceite.


Buzo: Cite 3 coisas boas no seu ano de 2015?
Jean Mello: Nem todas posso citar porque menores de idade lerão essa entrevista (risos). Então, escolhi essas três:
1) Dar uma palestra no Memorial da América Latina;
2) Publicar meu segundo livro, Exalando Esperança;
3) Publicar meu terceiro livro, Fim de Tarde.


Buzo: O que espera de 2016 e um salve pra quem vai ler essa entrevista.
Jean Mello: Para 2016 espero ir mais no espaço do Suburbano Convicto, principalmente em dias de sarau. Risos...
É uma brincadeira séria. Assumi um compromisso de me envolver mais em movimentos de quebrada. Em minha vida como educador, estive e estou muito envolvido com organizações não governamentais, em projetos sociais nas periferias, de um modo geral, dentro e fora de Sampa. Isso me fez aprender muitas coisas. Agora quero trocar... Aprender novas coisas e ensinar também.
Agradeço às pessoas que dedicaram seu precioso tempo lendo esse material e ao Alessandro Buzo por todo esse espaço e fortalecimento.
Feliz ano todo!
Jean Mello.

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